terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Uma salvação ativa

“(...) Continuem trabalhando com respeito e temor a Deus para completar a salvação de vocês. Pois Deus está sempre agindo em vocês para que obedeçam à vontade dele, tanto no pensamento como nas ações. (...)” (Fl. 2:12-13)

Vivemos numa época de relativa bonança econômica, mas de grande crise de valores e costumes. Corrupção, hedonismo e permissividade têm dominado a política, a educação e as mídias, e têm se infiltrado até mesmo na igreja. Assim, muitos têm vivido uma espiritualidade cheia de falhas, deturpações e comodismo. A salvação deve ser vivida com responsabilidade, com o fim único de agradar a Deus e num ritmo constante na direção do coração do Pai.

O conselho de Paulo aos Filipenses indica que nossa vida espiritual precisa conter uma disposição ferrenha de aperfeiçoamento no conhecimento do caráter divino e das instruções e orientações bíblicas. Nossa salvação deve ser ativa, levando-nos a um maior conhecimento sobre quem Deus é, o que nós somos e o que Ele espera de nós.

Não obstante tenhamos essa responsabilidade, com o tempo, a rotina diária e as preocupações do mundo podem nos envolver de tal forma que nos esquecemos que tudo passará, e que só permanecerá aquilo que foi plantado para a eternidade. Todavia, nada justifica a ausência na dinâmica da igreja e a displicência na devoção pessoal. A santificação precisa ser uma prioridade permanente em nossa vida, para a glória de Deus.

Tudo o que Deus nos dá – sejam conhecimentos, habilidades, experiências ou oportunidades – deve ser usado para engrandecer o nome dele. Há sempre uma forma de ser útil no serviço cristão, nos trabalhos da igreja. Apenas precisamos nos envolver com os outros membros do corpo de Cristo, buscar a orientação divina e nos colocar à disposição para trabalhar. Deus mesmo multiplica os dons e nos capacita para abençoarmos outros.

A salvação pode ter começo, mas não tem fim. Nosso movimento em direção á glória pode ser caracterizado por transformações diárias e pelo progresso espiritual. Mas para isso precisamos depender de Deus e colocar em ação tudo o que Ele nos tem dado, para vermos a ação do Espírito Santo e a consolidação do Reino de Deus.

Diante disso, como diz o escritor aos Hebreus, “deixemos de lado tudo o que nos atrapalha e o pecado que se agarra firmemente em nós e continuemos a correr, sem desanimar, a corrida marcada para nós. Conservemos os nossos olhos fixos em Jesus, pois é por meio dele que a nossa fé começa, e é ele quem a aperfeiçoa” (Hb. 12:1-2).
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Imagens: Panoramio e Agenda 21

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Crônica "Doença rara"

Aquias Valasco
Faz tempo que desconfiava que doença é que nem colher: só existe se você acreditar nela. Cheguei mesmo a escrever artigos sobre o tema, na tentativa de achar outros que me ajudassem a "desvendar" a mentira da alopatia ocidental de que precisamos de médicos, hospitais e remédios. Como o extraterrestre Prot, defendi enfaticamente que todo o ser humano tem em si o poder de se curar. Tal crença, porém, não foi suficiente para vencer minha própria neurose. Descobri que sou muito mais do que hipocondríaco. Sou doido de pedra mesmo. Nem estranharia se um dia acordasse conversando com o dedão do pé.

Após aguardar por dois anos e quase desistir, finalmente fui chamado para dar continuidade ao tratamento de asma no hospital de clínicas. Passada toda a via crucis de senhas, filas e esperas, estava já diante de uma médica que, para meu desespero, começou uma enxurrada de perguntas sobre o que tenho, o que sinto, o que faço e o que penso. Acho que nem o Analista de Bagé conseguiria me conduzir tão bem, tão violentamente e tão sem anestesia pelos recônditos desta minha cabeça estranha quanto aquela mulher. Terminando as perguntas, sentou-se tranquilamente e me esperou.

"Por onde começo? Por quantos minutos posso falar?" Essas dúvidas latejantes me causavam desespero, mas eu precisava responder. Afinal, não sabia quando ela poderia gritar "Próximo!".

Pois bem... tenho alergia a sabão, a Bactrim e a cheiros fortes; minha orelha às vezes esquenta e fica vermelha, e começa a cortar sozinha, eu lavo ou deixo de lavar, e dá na mesma; basta pensar em usar o copo de outra pessoa e me sai uma boqueira que dura uma semana ou duas; aos 14 anos, tive furúnculos do couro cabeludo à ponta dos pés e de vez em sempre aparece um caroço na virilha ou no traseiro, que eu combato ferozmente com Oceral; outro dia fui a um restaurante vegetariano e peguei uma intoxicação medonha, que me fez vomitar o cerebelo e um dos rins, me deu dores terríveis no peito, uma ânsia filha da mãe e olhos vermelhos durante uma semana; tenho um fissura na sétima vértebra que me impede de me barbear direito por causa das dores no lado direito do corpo; tenho uma lesão por esforço repetitivo mal curada; pêlo encravado que me obriga a fazer buracos no rosto com a pinça antes de fazer a barba; tenho uma hemorroida lascada que me obriga a carregar Hipoglós para cima e para baixo; tenho uma sudorese desgraçada que me faz trocar de roupa toda hora; minha rinite me causa apneias à noite; ronco feito um trator e chego a acordar minha mulher; cuspo o tempo todo porque minhas vias aéreas estão constantemente trancadas; lido com a depressão há 17 anos; não enxergo direito com o olho esquerdo; tenho coceiras nas coxas; fobia de mariposa, vertigem, falta de ar; perco o sentido quando rio muito; tenho refluxo há pelo menos 10 anos; transtorno obsessivo-compulsivo, meu maxilar é torto, enxergo cores nos números e... acho que é isso.

Senti-me esvaziado como uma bexiga cheia d'água jogada do 10º andar.

A moça, sentada, olhava para mim com os olhos fixos, mas com um ar de quem estava comendo um Cornetto sentada à beira da praia, como se já tivesse ouvido aquela mesma ladainha todos os dias, desde que completara 5 anos de idade. Enquanto eu esperava uma reação, dava para escutar as gargalhadas de minhas caspas, que despencavam solenes sobre os ombros.

"Mais alguma coisa?", disse ela, com um visível sarcasmo na voz.

"Não, doutora." Envergonhado, não sabia onde enfiar a cabeça. Parecia que havia acabado de fazer uma confissão dos pecados mais podres, sem qualquer esperança de absolvição.

"Senhor, o senhor é um doido varrido" - eu esperava que ela dissesse, mas, para minha exasperação, não disse. Nada. Célere e simpática como uma vendedora do Boticário, ela se levantou e desapareceu pelo corredor. Bem que ela podia ter rido ali mesmo, na minha frente; pelo menos eu não precisava ficá-la imaginando sentada no sanitário, tapando a boca sorridente com as duas mãos.

Ao sair do hospital, cabisbaixo e pesaroso, me dei conta de que havia algo de errado. Não tenho 100 anos, não sou refugiado de guerra e nem gosto de Lady Gaga. Como posso ter tantos problemas?!

Realmente, às vezes não há nada melhor para pensar do que uma longa viagem de ônibus. Quando cheguei em casa, não tive dúvidas: sentei na cama, abri minha gaveta de remédios e tomei uma decisão. Joguei todos os remédios no lixo e fui à farmácia comprar outros, porque aqueles deviam estar com a validade vencida.